TUDO A SEGUIR É FICÇÃO. AINDA QUE OS PERSONAGENS NEGUEM.

» Arqueologia do Porvir é uma publicação periódica, disposta a trazer recortes de futuros antigos, na tentativa de imaginar outros possíveis.

Qualquer futuro é fictício. Até que se torne presente.

Toda consciência é valiosa.


» sobre o autor:

Em um ponto misterioso do espaço-tempo há uma Casa.

Na verdade é um lugar espalhado por vários pontos misteriosos de vários espaço-tempos, mas a Casa tem uma sede, um coração. Tem porque precisa ter, porque a gente precisa de alguma materialidade, de alguma linearidade, quando a nossa rotina é viajar no tempo e cruzar realidades. É uma casa em constante expansão, sempre encontrando e refinando conexões com outros ondes-quandos. Por isso um de seus muitos nomes é Casa Incompleta.

Pessoas moram nesta casa. São seres que saíram de seus onde-quandos, de seus tempos e de seus espaços. Tornaram-se anacrônicos.

Eu sou um deles.

Os anacrônicos têm ofícios variados, mas todos envolvem a busca por transformações na tecitura do tempo. Entramos e saímos de diferentes onde-quandos, estudando maneiras de provocar transformações consistentes e frutíferas, sempre nos guiando pelo princípio zero da nossa filosofia:

“Toda consciência é valiosa.”

Para quem não está acostumado a pensar quadridimensionalmente pode ser difícil entender como agimos. Vou tentar colocar em termos primitivos.

Imaginem o tempo como um corpo. Em que sentido? No sentido que pode ser mudado, mas ate certo ponto. Cortar as unhas, o cabelo, a barba, pintar os pelos e o cabelo são procedimentos simples, que transformam o corpo mas apenas superficialmente. Uma tatuagem já demanda mais trabalho, mas também causa uma mudança mais permanente. Uma cirurgia plástica é um procedimento mais invasivo e seus resultados são ainda mais sofisticados. Um transplante de mente para um novo corpo é uma ação extremamente delicada e arriscada mas tem consequências definitivas. É do meu conhecimento que vocês ainda não oferecem esta última opção, mas suponho que sejam minimamente capazes de imaginá-la.

Fiz esta analogia para que entendam o tempo como algo simultâneo. Quer dizer que tudo o que vocês viveram, vivem e ainda viverão acontece ao mesmo tempo, como um corpo em toda a sua extensão. Mas isto significa que é imutável? Não, porque, como em um corpo, pode ser todo transformado e inclusive reinventado. O que varia é a intensidade da intervenção.

Meu ofício é equivalente a cortar as unhas do tempo.

Ou seja, eu pretendo interferir nos fatos e nas histórias que virão. Mas não pretendo transformar toda esta realidade, não é o estilo dos anacrônicos. Nós fazemos interferências sutis, com potencial de reverberação, para que o tempo mude por si mesmo. Que os residentes dos onde-quandos causem essas mudanças. Só assim elas se tornam consistentes.

Uma publicação “de ficção” tem esta característica, esta sutileza. Amparado pela ideia de que sou um personagem em uma história inventada, posso dividir verdades de outros onde-quandos, posso ser honesto e direto sobre minhas origens e meu ofício. Posso até proclamar que nada disso aqui é de fato ficção.

E o onde-quando de vocês é ideal para esta abordagem.

Porque estão vivendo uma crise da verdade. Estão naquele ponto do contínuo, que todas as civilizações eventualmente experimentam, quando o acesso à informação passa, pela primeira vez, a se equiparar em volume e forma ao acesso à produção de informação. Assim, a verdade consensual perde prestígio. É um período de confusão, quando a fronteira entre o fato e a ficção é tênue e constantemente questionada.

É, também, o ponto perfeito para apresentar elementos de futuros passados. Textos de lugares e tempos vindouros antigos, muitos dos quais até deixaram de vir a existir. Elementos de sociedades futuras que ficaram na história da posteridade.

Um trabalho de arqueologia, a Arqueologia do Porvir. E meu trabalho, além de oferecer estes recortes, é apresentar o contexto.

Por enquanto, pensem em mim como um Contextualizador.


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Recortes fictícios de futuros antigos, na pretensão de ampliar horizontes.

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